“O
que é bom dura pouco, é o que sou tentado a dizer do nosso
casamento; mas isso pode ser entendido de duas formas. Pode ser algo
assustadoramente pessimista – como se Deus não conseguisse ver
duas pessoas felizes e pusesse um ponto final... também poderia
significar: ‘Ótimo, já atingiu a perfeição. Tornou-se naquilo
que tinha condições de ser. Portanto, é claro, não poderia durar
demais.’ É como se Deus dissesse: ‘Bem, vocês passaram no
teste. Estou satisfeito com o resultado. Agora vocês estão prontos
para passar ao seguinte’ [...] Às ocultas ou às claras, parece
haver uma espada entre os sexos até que um casamento genuíno os
reconcilie. É nossa arrogância que chama virtudes como a franqueza,
a imparcialidade e o cavalheirismo de “masculinas”, quando as
vemos igualmente numa mulher; é pura arrogância nossa atribuir a
sensibilidade, o tato, ou carinho de um homem ao seu lado
“feminino”... O casamento tem o poder de curar essas coisas.
Juntos, os dois tornam-se de todo humanos. ‘À imagem de Deus {...}
homem e mulher os criou...’ E, então, um ou outro morre. E
pensamos nisso como um amor que foi podado; como uma dança
interrompida quando começava a evoluir, ou como uma flor com seu
botão bruscamente arrancado – algo mutilado e, portanto,
deformado. Penso comigo: se, como não posso deixar de suspeitar, os
mortos também sentem os tormentos da separação (entendido por
alguns como um dos seus sofrimentos expiatórios), então para ambos
os amantes, e para todos os casais de apaixonados, sem exceção, a
perda causada pela morte é uma parte universal e integrante da
experiência de amar.”
LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor. Um luto em observação.
São Paulo: Ed. Vida, 2006. p. 68-69.

