terça-feira, 26 de maio de 2015

Anatomia de uma dor

O que é bom dura pouco, é o que sou tentado a dizer do nosso casamento; mas isso pode ser entendido de duas formas. Pode ser algo assustadoramente pessimista – como se Deus não conseguisse ver duas pessoas felizes e pusesse um ponto final... também poderia significar: ‘Ótimo, já atingiu a perfeição. Tornou-se naquilo que tinha condições de ser. Portanto, é claro, não poderia durar demais.’ É como se Deus dissesse: ‘Bem, vocês passaram no teste. Estou satisfeito com o resultado. Agora vocês estão prontos para passar ao seguinte’ [...] Às ocultas ou às claras, parece haver uma espada entre os sexos até que um casamento genuíno os reconcilie. É nossa arrogância que chama virtudes como a franqueza, a imparcialidade e o cavalheirismo de “masculinas”, quando as vemos igualmente numa mulher; é pura arrogância nossa atribuir a sensibilidade, o tato, ou carinho de um homem ao seu lado “feminino”... O casamento tem o poder de curar essas coisas. Juntos, os dois tornam-se de todo humanos. ‘À imagem de Deus {...} homem e mulher os criou...’ E, então, um ou outro morre. E pensamos nisso como um amor que foi podado; como uma dança interrompida quando começava a evoluir, ou como uma flor com seu botão bruscamente arrancado – algo mutilado e, portanto, deformado. Penso comigo: se, como não posso deixar de suspeitar, os mortos também sentem os tormentos da separação (entendido por alguns como um dos seus sofrimentos expiatórios), então para ambos os amantes, e para todos os casais de apaixonados, sem exceção, a perda causada pela morte é uma parte universal e integrante da experiência de amar.”

 LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor. Um luto em observação. São Paulo: Ed. Vida, 2006. p. 68-69.

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